Perder alguns anos de vida por uma cinturinha, apatia sem fim em troca de uma silhueta enxuta. Prioridades femininas como essas resumem uma visão de mundo que tem assustado a classe médica: é como se a vida só valesse à pena se vivida por um corpo magro. “Há um medo mórbido de engordar a ponto de a mulher preferir a doença ao risco de ganhar peso”, diz Marco Antonio De Tommaso, psicólogo pela USP, terapeuta e consultor das agências de modelo Elite e L’Equipe.

Beleza à custa de saúde é uma das constatações apontadas pelo estudo Depresíon en Latinoamérica (DELA), conduzido pelo Ibope e divulgado na semana passada durante o XXV Congresso da Associação Latino-Americana de Psiquiatria, na Venezuela. Entre as 1.100 latinas entrevistadas, todas com idades entre 35 e 55 anos, as brasileiras são as que mais abandonam o tratamento contra depressão em função do ganho de peso: o índice chega a 30%, seguido por 18% na Colômbia. 

Diagnosticada com depressão e síndrome do pânico há um ano, a bancária Daniella Matos, 42, ilustra com exatidão o dilema vivido por aquelas que se dividem entre o equilíbrio mental e o bem-estar físico. “Engordei 18 kg na medida em que me descobria depressiva e entrava com os medicamentos. Tenho pavor de gordura e cheguei a interromper o tratamento quatro vezes, mas após ficar uma semana sem remédios o mal-estar era tão insuportável que eu voltava”, relata. 

Não é apenas o ganho real de peso que atemoriza as mulheres à beira de uma depressão. Quase metade das brasileiras analisadas pelo DELA (45%) admite que a mera possibilidade de engordar por meio de antidepressivos é capaz de desencorajar uma adesão ao tratamento. 

O levantamento consultou também venezuelanas, colombianas, mexicanas e chilenas. No Brasil foram ouvidas 300 mulheres, em três capitais (São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre). Para 97% delas a mudança no apetite é, de fato, o principal efeito da depressão. 

 

Mestre em psiquiatria e vice-presidente do Departamento de Psicoterapia da Associação Brasileira de Psiquiatria, Fátima Vasconcellos analisa a relação entre depressão e comida. “O diagnóstico da depressão passa pela verificação do aumento ou queda de fome, a doença tem ligação com os transtornos alimentares”, explica. “Antidepressivos podem engordar, sim, mas não tratar a depressão pode fazer engordar muito mais.”

Para Fátima, “subestimar uma doença só para manter a forma já é sinal de que algo não vai bem”. Ela lembra que algumas mulheres usam esse mesmo argumento para não tratar o tabagismo. “Outras deixam de aplicar insulina na dose certa também para não engordar. Isso mostra que cada um pode ser seu pior inimigo.” 

Doutor em psiquiatria pela USP e coordenador do Programa de Atenção à Saúde Mental da Mulher, Joel Rennó Jr. recomenda cautela ao analisar antidepressivos. “Efeitos dependem do tempo de uso e da dosagem. Há diferenças entre as classes de antidepressivos e até mesmo entre remédios da mesma classe. A prevalência de obesidade é de 2 a 5 vezes maior entre pacientes com distúrbios psiquiátricos tratados com fármacos em comparação à população geral, mas esse efeito não depende só do remédio. Reações particulares de cada metabolismo também contam.”

Rennó, que acaba de lançar o livro “Mentes Femininas”, diz que o ganho de peso, quando desencadeado pela medicação, corresponde em média a 5% do peso corporal da mulher. “É algo em torno de 3 kg quando se tem 60 kg, ou seja, não serão esses quilos que levarão à obesidade. As mulheres, em todas as idades, têm grande preocupação com a imagem. Isso reflete pressões conjugais, sociais ou até no próprio trabalho”, acredita. 

O alto preço da vaidade para a saúde
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