o câncer do cólon e do reto (colo-retal) representa a segunda causa de morte por doença maligna nos Estados Unido. Apesar de não ser dada muita atenção a este câncer no Brasil, ele deve determinar a morte de aproximadamente cinco mil pessoas durante o ano de 96. Seu desenvolvimento está relacionado a hábitos alimentares e à hereditariedade.

A seguir, entrevista com Prof@ Dra. Angelita-Habr, professora associada do departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da USP e diretora da disciplina de Coloproctologia desse departamento. Profissional das mais gabaritadas , é filha de libaneses, nasceu na Ilha de Marajó e veio para São Paulo aos 7 anos .

– Qual a incidência dessa doença?

É o segundo câncer mais frequente nos Estados Unidos hoje. No Brasil não são conhecidos precisamente os números atuais; estamos numa incidência intermediária entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos.

Mas hoje é o câncer mais frequente dentro do aparelho digestivo. Considerava-se que esse câncer fosse exclusivo dos idosos; entretanto, esse tipo de câncer está afetando uma população cada vez mais jovem, provavelmente devido aos hábitos da população moderna. A incidência é a mesma para homem e mulheres. Na sua incidência influenciam fartores ambientais e hereditários .

– Está relacionado com estilo de vida?

Dentro dos fatores ambientais, não há dúvida de que os mais importantes relacionam-se à alimentação. Nos países onde o consumo de fibras é pequeno, onde a ingestão de gorduras, alimentos com aditivos, conservantes e corantes é grande, a incidência do câncer é maior. Quanto mais desenvolvido economicamente o país, maior o consumo desses produtos .

A vida moderna leva à necessidade de conservação dos alimentos, e nem todos os métodos usados são adequados. Alguns incluem produtos que promovem o aumento da quantidade de substâncias chamadas carcinogenéticas no interior do intestino, que favorecem a incidência do câncer no intestino grosso.

– A qualidade de vida está relacionada com a incidência da doença?

Exatamente. O hábito alimentar deve ser saudável. Deve-se comer verduras, legumes, cereais, evitar gordura (principalmente gordura animal), fumar o menos possível, ingerir pouco álcool. Esses fatores ambientais são muito importantes.

– Além dos fatores ambientais, a hereditariedade é importante?

Sim. Cerca de 10% desses cânceres, são ligados a fatores genéticos. Hoje são reconhecidas famílias com uma tendência maior para ter câncer. A medicina evoluiu muito nos ultimos anos e com os conhecimentos específicos da biologia celular e da oncogenética são reconhecidos os gens do indivíduo.

Assim, colhe-se o sangue de um portador do câncer, bem como de seus descendentes e, de acordo com o resultado verifica-se quem é susceptível ou não a ter câncer. Assim sendo, dentre os descendentes de um portador de câncer colo-retal, poderão ser selecionados aqueles que devem ser submetidos periodicamente a exames para preveneir o câncer. Senão, a pesquisa torna-se aleatória e todos os descendentes deverão ser examinados.

– Quais são os sintomas do câncer colo-retal?

O intestino grosso é constituído fundamentalmente de três partes: cólon direito, cólon esquerdo e reto. Dependendo da localização do câncer, os sintomas são diferentes. O indivíduo que tem câncer do cólon direito pode permanecer muito tempo assintomático ou com sintomas vagos – mal-estar, anemia, cansaço, sangue nas fezes , alteração no funcionamento do intestino.

No câncer do cólon esquerdo, a pessoa tem constipação intestinal (intestino preso), dificuldade para evacuar, cólicas e sangue nas fezes. Já no câncer do reto, o primeiro sintoma é a vontade constante de ir ao banheiro (tenesmo) e a pessoa não se sente satisfeita, porque o tumor está ali e desperta um reflexo de evacuação.

Há perda de sangue visível nas fezes, porque o tumor está baixo. A perda de sangue nas fezes deve alertas a pessoa a procurar imediatamente um especialista para investigação completa. Há muita confusão de diagnóstico com hemorróidas.

– Como é feito o diagnóstico?

No câncer do reto o diagnóstico pode ser feito no consultório, por meio do toque retal. Além disso, o coloproctologista dispõe de um aparelho, o retossigmoidoscópio, que permite examinar 25 cm além do orifício anal. Quando o câncer é mais alto, no cólon esquerdo ou cólon direito, o toque retal não vai dar o diagnóstico.

Para esses casos, existem dois exames fundamentais: Raio-x (uma chapa radiográfica denominada clister opaco) e a colonoscopia. Hoje a colonoscopia é o exame mais importante para o diagnóstico do câncer colo-retal. Nesse procedimento é introduzido um tubo flexível no reto do paciente sedado.

Esse método permite o exame direto de toda a superficie interna do intestino grosso e lesões maiores ou muito pequenas são vistas e, no mesmo ato, já podem ser biopsiadas. Além disso, as les ões designadas como polipos e que são precursoras do câncer podem ser ressecadas pelo colonoscópio, evitando uma cirurgia e, mais importante, previnindo assim o aparecimento do câncer.

– Se não existem sintomas , em quem deve ser feita a colonoscopia?

As pessoas que têm os sintomas mencionados, ou na população de risco para câncer colo-retal assintomática, isto é, nas pessoas acima de 50 anos e naquelas que têm na família caso de câncer de intestino grosso. De modo geral, o risco de se ter câncer, não s ó do intestino grosso como o câncer em geral, aumenta significativamente com a idade. Acima dos 50 anos, a probabilidade de ter câncer aumenta a cada década que o indivíduo alcança.

– Como é feita a prevenção?

Deve-se alterar o hábito alimentar, fazendo uma dieta equilibrada e balanceada. Comer muita fibra, vegetais, legumes frescos, cerais e frutas. Evitar as carnes defumadas e as assadas na brasa. Além disso, é importante ensinar a população a valorizar os aspectos genéticos do câncer. O melhor método de prevenção de câncer colo-retal é fazer, nos grupos de risco, a colonoscopia e retirar os polipos que eventualmente existirem, porque retirandoos você está prevenindo o câncer.

– Qual a probabilidade de cura?

O câncer de colo-retal é de excelente prognóstico quanto à cura. Se você operar um indivíduo com câncer de intestino numa fase em que ainda o câncer está limitado em sua penetração na parede do intestino, a probabilidade de cura é acima dos 70 %.

Dr. Angelita, fale sobre suas atividades.

Pertenço à Faculdade de Medicina da USP todos os dias pela manhã. Lá eu opero, ensino os residentes , dou aulas , faço pesqui, onde vou no período da manhã. Lá eu opero, exerço atividade didática, ensinando alunos , residentes , pós -graduados e desenvolvendo pesquisa. Fora isso, exerço atividade particular, a partir da hora do almoço, no hospital ou no consultório, onde estamos muito equipados .

Montamos um centro de oncogenética (onde fazemos estudos , aconselhamento familiar e mantemos intercâmbio com os Estados Unidos). Realizamaos colonoscopia e todos os testes para investigação das motilidades digestivas e para incontinência anal e distúrbio da defecação. Além disso, contamos com uma enfermeira especializada em estomaterapia para cuidar do paciente que tem ostomias (abertura na parede abdominal, que pode ser uma colostomia ou ileostomia.

Fonte: Prof. Dra. Angelita Habr Gama

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