A soja e o combate ao câncer

Há séculos os seres humanos sabem que as plantas têm grande capacidade de curar ou prevenir doenças, contribuindo para uma vida saudável. A medicina moderna continua a fazer bom uso desse conhecimento e a ampliá-lo com testes científicos. Hoje, 25% das drogas usadas na terapêutica ocidental provêm das plantas.

Em 1990, cientistas de todo o mundo se reuniram em um workshop do National Cancer Institute para identificar as partes da soja que poderiam reduzir o risco de câncer. Eles conseguiram classificar cinco tipos de compostos que apresentam potencial de combater o câncer (e acreditam que provavelmente haja vários outros). Contudo, concentraram suas pesquisas em um grupo de substâncias químicas denominadas isoflavonas.

As isoflavonas integram um grupo maior de substâncias chamadas de fitoquímicos. Os fitoquímicos são substâncias que têm atividade biológica e, em muitos casos, causam efeitos na saúde, mas não são nutrientes como as vitaminas e os minerais. Não há doenças nutricionais específicas associadas à ausência desses elementos na dieta. Eles não sustentam necessariamente a vida. Contudo, podem ser importantes para promover uma ótima saúde.

O prefixo “fito” se refere às plantas. Portanto, os fitoquímicos são substâncias químicas vegetais que não podem ser encontradas em nenhum alimento de origem animal. Mas a maioria das plantas, inclusive as alimentícias, é rica em vários fitoquímicos. No entanto, as isoflavonas fazem parte de um grupo especial. Na prática, você precisa consumir soja para obtê-las. Nenhum outro alimento contém quantidades significativas dessa substância.

Duas isoflavonas na soja têm despertado mais interesse dos nutricionistas: a genisteína e a daidzeína. A primeira é a que demonstra maior potencial de prevenir o câncer. É fato que o interesse pela genisteína aumentou muito nos últimos anos. Em 1985, foi publicado um estudo científico sobre essa isoflavona. Em 1994, quase 300 artigos foram publicados em jornais científicos. Às vezes, as isoflavonas são chamadas de fitoestrógenos (estrógenos vegetais). Na verdade, sua composição química é bastante similar à do estrógeno humano, mas apresenta algumas diferenças importantes.

Níveis elevados de estrógeno no sangue aumentam o risco de câncer de mama e outros relacionados com os hormônios, como o de ovário, o de endométrio e de útero. As células da mama têm receptores que “reconhecem” o estrógeno e lhe permitem se ligar a elas. Quando o hormônio entra na célula, acredita-se que seja envolvido em uma série de reações que aumentam a probabilidade de desenvolvimento de células cancerosas. Então, como os alimentos à base de soja (ricos em estrógeno vegetal) reduzem o risco de câncer? A resposta está no fato de que há diferenças sutis entre os estrógenos vegetais e o humano. Devido a algumas diferenças na estrutura química das isoflavonas, elas atuam apenas como estrógenos muito fracos. A genisteína só tem cerca de 0,01% da força do estrógeno humano, apesar de sua semelhança com a ele, o que a torna capaz de confundir o organismo, como qualquer estrógeno vegetal.

Os receptores de estrógeno na mama “reconhecem” a genesteína e lhe permitem se unir à células exatamente como ocorre com o estrógeno humano. Mas a atividade hormonal da genesteína é tão fraca que não tem qualquer efeito cancerígeno. Seu potencial anticancerígeno se deve ao fato de que ela impede que o estrógeno humano, mais forte e cancerígeno, entre nas células da mama. Há muitos locais receptores de estrógeno no tecido mamário. Quanto mais espaço é ocupado pela genesteína, menos oportunidades o estrógeno humano tem de chegar às células. É como por a chave errada na fechadura. Parece a chave certa (estrógeno humano) e se encaixa na fechadura (receptores de estrógeno), mas não abre a porta (nesse caso, não se inicia o processo de câncer).

Por esse motivo, as isoflavonas são frequentemente chamadas de “antiestrógenos”. Embora ajam de maneira parecida à do hormônio, o fato de serem mais fracas e interfirirem em sua principal atividade torna o efeito global exatamente o oposto.

Uma observação interessante sobre esse efeito antiestrógeno da genesteína é que parece similar ao do tamoxifeno, uma droga importante usada no tratamento do câncer de mama. Estuda-se também um eventual papel dessas substâncias na prevenção desse tipo de câncer.

Fonte: Livro Culinária da Soja

Soja – Uma fábrica de fitoquímicos
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